Décio Oddone, Diretor-Presidente da Enauta, analisa os desafios e o futuro do mercado de gás brasileiro

Fonte: Aprix Journal

 

Por: Vanessa Petuco

 

 

O ex-diretor geral da ANP também comenta sobre como a companhia independente de E & P tem se ajustado às mudanças no setor de gás

 

Recentemente, em setembro de 2020, a Enauta, uma das principais empresas de controle privado do setor de Exploração e Produção (E & P) no Brasil, passou a ser dirigida e presidida por Decio Oddone. Gaúcho, natural de Lavras do Sul, Décio iniciou sua carreira graduando-se em Engenharia Elétrica, na Universidade do Rio Grande do Sul (UFRGS). Sua formação também conta com os cursos de Engenharia de Petróleo na Petrobras, de Advanced Management Program na Harvard Business School e de Advanced Management Programme no Institut Européen D’Administration des Affaires (Insead).

 

Com mais de 35 anos de experiência no setor de óleo e gás, o engenheiro já comandou subsidiárias da Petrobras na Bolívia e na Argentina, atuou como vice-presidente da Braskem e diretor da Prumo Logística. Seu último cargo não foi menos notável: dirigiu durante mais de três anos a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

 

Em entrevista ao Aprix Journal, Decio Oddone analisou as perspectivas para o futuro do mercado brasileiro de gás, tendo em vista a aprovação do PL 4.477/2020. Além disso, o atual Diretor-Presidente da Enauta dialogou sobre como a operadora independente tem se ajustado às mudanças no setor. Confira:

 

Aprix Journal — Quanto à questão do novo marco regulatório do setor de gás natural no Brasil. Em sua avaliação, o que a sua aprovação representa para o mercado brasileiro de combustíveis? E que impactos essa nova lei pode gerar?

 

Decio Oddone — O novo marco regulatório vai viabilizar a atração de investimentos para o setor, com a entrada de novos competidores, diminuindo os custos para indústria e consumidores e, consequentemente, aumentando a participação do gás natural na matriz energética brasileira. Agora que a transição para uma economia de mais baixo carbono ganha velocidade a cada dia, a importância do gás aumenta.

 

Aprix Journal — Outro acontecimento recente no setor foi o reajuste de 39% no preço do gás natural que entrará em vigor a partir do dia 1º de maio. Considerando que em 2020 os preços do gás natural da Petrobras chegaram a cair 35%, em sua opinião, a que se deve este aumento?

 

Decio Oddone — Esse aumento é uma resposta à fórmula presente nos contratos, que contempla a valorização do petróleo e o câmbio, e também ao reajuste anual das tarifas de transporte, que são atreladas ao Índice Geral de Preços — Mercado (IGP-M). O setor de gás é influenciado diretamente pelas dinâmicas do petróleo e do câmbio. A entrada de novos fornecedores, oferecendo o insumo em diferentes condições de preço e pagamento, pode mudar esse quadro.

 

Aprix Journal — Quais são os desafios do setor de gás natural no Brasil para os próximos anos?

 

Decio Oddone — Em um cenário de transição energética para uma economia de baixo carbono em todo o mundo é preciso ter pressa para explorar o petróleo e o gás enquanto há demanda pelos produtos. O petróleo está caminhando para a obsolescência. A transição energética vai levar à diminuição do consumo. O gás deve ser o combustível da transição. E no Brasil ainda perfuramos muito pouco. Temos o desafio de explorar enquanto as reservas ainda têm valor e aproveitar o gás durante o período de transição.

 

Aprix Journal — Como você visualiza o futuro deste mercado?

 

Decio Oddone — A Enauta é uma companhia independente de Exploração e Produção (E & P) de petróleo e gás, que tem como estratégia a construção de um portfólio mais diversificado e com o maior potencial para geração de valor entre as empresas independentes de petróleo e gás natural operando no Brasil. Vivemos uma abertura no mercado de petróleo e gás que traz novas oportunidades, o que é positivo para o setor.

 

No Brasil, a Petrobras (maior empresa nacional do nosso setor) acelerou sua estratégia de desinvestimento em diversos ativos. Esse movimento muda a configuração do mercado. Nesse novo momento estamos particularmente bem posicionados para construir um portfólio equilibrado, com ativos em produção e em desenvolvimento que nos permitam ter a geração de caixa necessária para desenvolver projetos que gerem maior valor aos acionistas.

 

Aprix Journal — De que forma a Enauta tem se preparado e se posicionado para se adaptar às futuras mudanças deste mercado?

 

Decio Oddone — Por ser menos carbono intensivo, o gás é essencial na transição da matriz energética global. Desde 2007 produzimos gás no Campo de Manati, um dos maiores reservatórios de gás não associado do Brasil, quando soubemos superar o desafio de viabilizar um mercado para essa fonte de energia. O ano de 2020 marcou o início da ampliação e diversificação do nosso portfólio para ativos onshore. No 2º Ciclo da Oferta Permanente da ANP, adquirimos quatro blocos exploratórios terrestres na Bacia do Paraná. Os estudos já realizados apontam boas perspectivas de acumulações de óleo e gás natural e, em caso de descoberta, a proximidade com o mercado consumidor do combustível facilitaria o escoamento da produção. Na Enauta, estamos atentos a oportunidades de compra de ativos de petróleo e gás em produção que agreguem valor e contribuam com a diversificação do portfólio da empresa.

 

Aprix Journal — Você saberia dizer como as tecnologias têm colaborado e podem colaborar para o aumento da eficiência deste mercado?

 

Decio Oddone — O uso de inovação e tecnologias vem sendo responsável pelos principais avanços da indústria, como a revolução do shale nos Estados Unidos e o aumento da produção no pré-sal. A intensificação da revolução digital (digitalização, indústria 4.0, big data, inteligência artificial) vai revolucionar o setor nos próximos anos.

 

Aprix Journal — Por fim, cabe dizer que a Aprix vem atuando no fornecimento de inteligência de pricing para o setor de combustíveis. Acreditamos que existam grandes oportunidades também no setor do gás natural. Como você vê essa alavanca de oportunidade no setor?

 

Decio Oddone — Acredito que a transparência na formação e divulgação de preços traz benefícios para os agentes e para o consumidor.